2. ENTREVISTA 1.5.13

MARIAN SALZMAN - O METROSSEXUAL  PARTE DA IDENTIDADE MASCULINA
Especialista em detectar tendncias, a pesquisadora americana que popularizou o termo metrossexual diz como sero os relacionamentos, o trabalho e o consumo no futuro 
por Joo Loes

 VRIAS UNIES - Ter 12 casamentos poder ser comum, diz
 
Descobrir tendncias  o ofcio da americana Marian Salzman, 52 anos. Responsvel pela popularizao do termo metrossexual na dcada passada, ela viaja o mundo atrs do que h de mais novo em comportamento humano a servio da Havas PR, de Nova York, agncia de relaes pblicas que preside. Atualmente, Marian prefere circular por pases em desenvolvimento, como o Brasil e a frica do Sul, onde as novidades parecem ser mais frescas. Para captar uma tendncia nova, alm de estar ligado nas redes sociais,  preciso circular pelas cidades de mente aberta, visitar supermercados e feiras de rua e vale, at, investigar o lixo das pessoas. Do que v, ela decodifica hbitos de consumo e at incongruncias entre discurso e prtica. Em conversa com ISTO, Marian revelou o que espera para o futuro dos relacionamentos, do entretenimento, do trabalho, da poltica e do consumo.

"Madonna no lana tendncias, ela espalha. Ela observa o que vai decolar e aposta naquilo, mas nunca  a primeira 

"Em 2013, Bill Clinton jamais conseguiria ter o relacionamento com a estagiria Monica Lewinsky e quase se safar, como em 1998"

Marian Salzman - Para as tendncias alegres, pases jovens e em desenvolvimento como o Brasil e a frica do Sul. Eles so geradores de tendncias positivas porque neles prevalece a crena de que o amanh ser melhor do que hoje. Pessoas seguras e otimistas arriscam mais e, portanto, inovam mais. Nesse sentido, tendncias negativas vm de regies pessimistas. Atualmente, o centro desse negativismo  a Europa.

Isto - A sra. segue algum mtodo para identific-las? 

Marian Salzman - Sim, e meu mtodo est cada vez mais refinado graas  internet e s redes sociais. Hoje, no saberia como fazer esse trabalho sem essas ferramentas. E as uso basicamente para buscar e registrar a incidncia de palavras-chave. A ideia  identificar quais palavras-chave mais aparecem, em quais veculos e a partir disso identificar padres. Meu mtodo sempre foi o de procurar no quem cria tendncias, mas quem espalha tendncias. Por exemplo, Madonna no lana tendncias, ela espalha. Ela observa o que vai decolar e aposta naquilo, mas nunca  a primeira.

Isto - Faz pesquisa de campo? 

Marian Salzman - Claro. Quando viajo, por exemplo, visito supermercados, alm de feiras de arte nativa e de rua. Nesses lugares entendo o que as pessoas esto procurando e do que elas esto abrindo mo. Outra coisa que gosto de fazer  ver o lixo das pessoas. Em alguns lugares chego a oferecer US$ 50 para fotografar o lixo de uma famlia. O lixo no mente. Tem muita famlia dizendo que recicla, que s come orgnicos e que tem dieta equilibrada. A voc abre o lixo e s v refrigerante, sorvete e comida processada. Acontece muito.

Isto - H quem diga que estamos trocando a vida real pela virtual nas redes sociais. O que acha disso? 

Marian Salzman - Os crticos dizem que as redes sociais so, na verdade, antissociais. Acho que elas so sociais de uma maneira nova. Se voc est em contato com seus amigos, no d para dizer que voc no est sendo social, voc s est sendo social de outra maneira. No dia que embarquei para o Brasil, disse no meu Twitter que estava indo para So Paulo. A vi que trs amigos meus, cada um de um Estado nos EUA, tambm estariam aqui. Jamais saberia sem o Facebook. Posso marcar de encontr-los, sair para conversar ou comer. Posso no concordar, mas compreendo os crticos. Meus pais achavam o telefone antissocial, no se conformavam que eu ligava para as minhas amigas em vez de pegar a bicicleta e ir conversar com elas.

Isto - Com a vida exposta online h menos privacidade. Bill Clinton conseguiria manter em segredo, hoje, o caso com a estagiria Monica Lewinsky? 

Marian Salzman - No. Em 2013, Bill Clinton jamais conseguiria ter feito o que fez com o relacionamento com Monica Lewinsky e quase se safar, como aconteceu em 1998. No existe mais privacidade na poltica. Ser transparente no  mais opo.  o nico caminho possvel.

Isto - Qual o futuro da televiso? 

Marian Salzman - As pessoas vo fazer a prpria televiso. E a programao autocriada crescer exponencialmente por uma razo simples: somos experts no que nos interessa. Seu amigo tem muito mais chance de saber o que voc gosta de ver do que uma rede de televiso. O programa dele pode no ter uma audincia gigantesca  essas continuaro com as megaprodues , mas ele ter audincia porque existe demanda. Por mais especfico que seja o assunto, algum vai ver. Com as redes sociais, o contedo chega aos interessados. E chega por todos os caminhos, televiso, tela do computador e celular.

Isto - Que grande tendncia a sra. no enxergou? 

Marian Salzman - Errei uma que me faz parecer uma idiota. Um cliente queria desenvolver uma parceria com o Facebook em 2005 e eu disse que ele deveria esquecer o projeto e que a rede no merecia cinco centavos de investimento. Mas  assim, voc erra uma e acerta outra. Disse que o Twitter, por exemplo, teria o tamanho e a relevncia que ele tem atualmente. E hoje aposto na onda do AirBnB (uma rede de relacionamentos em que as pessoas alugam casas ou quartos que est presente em 192 pases) e nessa histria do compartilhamento de sofs como grande tendncia para o mercado de turismo.

Isto - Por que essa onda vai pegar? 

Marian Salzman - Comeou s com os sofs. Voc aluga o seu sof para um viajante, ele dorme na sua casa e voc recebe uma diria. Eu acho esse o modelo interessante, mas limitado. Hoje, sites como o AirBnB listam de sofs a manses. Ampliou o escopo. A ideia  fantstica e, em pases onde a crise econmica teve grande impacto, pode ser revolucionria. O sujeito j paga uma fortuna de financiamento na prpria casa. Alugando quartos, pelo menos ganha dinheiro.

Isto - O metrossexual morreu? 

Marian Salzman - No, ele virou um subtipo, parte importante da identidade masculina. Os homens hoje tomam mais cuidados com eles mesmos. Ningum mais acha que um homem bem apessoado e cuidadoso com barba, mos e unhas  gay. 

Isto - Como uma tendncia nasce e morre? 

Marian Salzman - Hoje, no mundo das mdias sociais, modas esto muito em evidncia. Por exemplo: uma tendncia hoje  que o sal seja tratado como o novo cigarro e, daqui a pouco, que o celular seja tratado como o novo cigarro. Como uma tendncia como essa nasce? Primeiro, com informao e dados de pesquisas. Tem informao confivel saindo da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, apontando esse perigo. Tambm tem gente que nega isso, principalmente quem trabalha com pesquisas patrocinadas vindas de centros de estudo no norte da Europa, onde h grandes fabricantes de telefones celulares. A visibilidade sobre o assunto est aumentando muito. H um aumento desproporcional de mortes de pessoas que so grandes usurios de telefone celular por tumores chamados glioblastomas. Pessoas esto comeando a falar do assunto. Um alerta foi emitido recentemente nos Estados Unidos e na Europa para que crianas de at 14 anos no usem o telefone celular junto da cabea porque os ossos do crebro ainda esto em formao. Todas essas informaes, pesquisas, observaes e intuies se somam para criar uma tendncia. 

Isto - E qual o desdobramento disso? 

Marian Salzman - Vou dar outro exemplo. Detectamos em nossas pesquisas a tendncia da terceirizao da gravidez. H vilas inteiras na ndia, chamadas de ilhas de fertilidade, aonde voc pode ir levando o mximo de material biolgico prprio e l conseguir uma barriga de aluguel. Um desdobramento disso  que est aparecendo preconceito contra mulheres que no tm gravidez vaginal. A partir da surgem vrios debates. As tendncias nascem, ganham impulso com dados, estatsticas e observao e saem na imprensa. Depois so filtradas pela repercusso, codificadas com uma frase enxuta e ento podem sobreviver alguns meses ou 15, 20 anos.

Isto - Toda tendncia comportamental tem potencial para ser explorada comercialmente? 

Marian Salzman - Toda tendncia pode ter impacto comercial, mas, se ele vai ser positivo ou negativo, varia. H tendncias anticomerciais. O compartilhamento de roupas e bens  uma delas. No h grandes lojas que vendem jeans ou camisetas usadas. Essa tendncia pode acabar com bons negcios no ramo. 

Isto - Por que grandes empresas so lentas para agir a partir das orientaes de profissionais como a sra.? 

Marian Salzman - Elas no agem to rpido quanto deveriam, mas tambm reconheo que elas tm outras responsabilidades, como entregar resultados trimestralmente. Estar muito em dia com as tendncias apresenta alguns problemas, como chegar ao lugar certo cedo demais. Acertar o timing no  fcil. E, para uma empresa, os riscos de embarcar em uma tendncia na hora errada so muito grandes. Por exemplo, quando falei do metrossexual pela primeira vez, em 2003, no era hora de as empresas agirem sobre essa tendncia. A partir de 2005 fazia mais sentido. Quem esperou teve melhores resultados. Por outro lado, falo do impacto do AirBnB para a indstria da hotelaria h cinco anos. Eles me chamavam de louca. Hoje, os hotis perderam em mdia 5% do trnsito de clientes para esse tipo de servio.

Isto - O que muda nos relacionamentos nos prximos anos? 

Marian Salzman - A consolidao da ideia de que o casamento no  para a vida toda  isso para casais com qualquer composio. E as razes so simples. Uma delas  que, se vamos viver 104 anos, a necessidade de variar aumenta. No futuro, ter 12 casamentos ao longo da vida com unies que duram entre cinco e 15 anos pode ser comum.

Isto - Como sero esses casamentos? 

Marian Salzman - Quem estuda isso j fez um mapeamento dos diferentes perfis que vamos buscar em diferentes pocas da vida. O primeiro parceiro, por exemplo, costuma ser algum com quem vamos dividir as despesas naturais do comeo de uma vida independente, como aluguel e contas. Ns nos juntaremos a um amigo de quem gostamos e teremos um relacionamento com amor e praticidade. O segundo vir no contexto de desenvolvimento da carreira. Ns nos juntaremos a algum que pode nos dar apoio no deslanchar da vida profissional. 

Isto - E os filhos? 

Marian Salzman - Viro no terceiro casamento. Ser algum que seja bom para cuidar de crianas, que tenha valores parecidos com os seus e esteja disposto a ter um relacionamento um pouco mais longo. O quarto volta a ser um facilitador da vida profissional, para que ela entre em nova fase, j que estaremos mais velhos e mais experientes. O quinto pode ser um retorno  vida familiar, para um ou outro filho. E assim esses perfis vo se alternando de acordo com as necessidades. Com os avanos na medicina, a idade, o maior impedimento para o adiamento na concepo dos filhos, deixa de ser um problema. As coisas ficaro mais fluidas e pragmticas.

